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Mensagens - flávio

#1
Fórum principal / Crítica do livro Soviet Watches
04 Junho 2026 às 10:22:20
Raríssimos são os colecionadores de relógios soviéticos no Brasil. Em quase trinta anos convivendo com pessoas do meio, nunca conheci um colecionador dedicado ao tema. De vez em quando aparece alguém com um Amphibia ou um Sturmanskie, mais pelo exotismo da peça do que por interesse na história da relojoaria soviética.

Talvez por isso tenha ficado tão curioso quando surgiu, em 2026, o livro Soviet Watches, de Kim Jang. Afinal, trata-se de um tema cercado por lacunas documentais e sobre o qual existe muito pouca literatura acessível.

Minha impressão geral é positiva. O livro oferece um caminho organizado para quem deseja iniciar uma coleção de relógios soviéticos. O autor apresenta os modelos mais relevantes, suas fábricas de origem, comenta o estado atual do colecionismo, alerta sobre falsificações e até discute valores de mercado. Só por isso, já considero a obra recomendável.

Há, contudo, algumas limitações. A mais evidente é a ausência de fotografias, algo que o próprio autor promete corrigir em futuras edições. Não chega a comprometer a leitura, mas obriga o leitor a recorrer constantemente à internet para visualizar os modelos mencionados.

O estilo de escrita também lembra mais uma apostila do que uma obra em prosa. Em apenas cem páginas, a narrativa histórica acaba sendo necessariamente resumida. O capítulo sobre as origens da relojoaria soviética, por exemplo, é bastante superficial para um tema tão rico.

Também encontrei algumas imprecisões históricas e técnicas. Entre elas, a descrição da origem do calibre 3133 e certas explicações sobre o Raketa Copernicus, o Slava 2427 e o Luch 3055, que me pareceram questionáveis ou possivelmente afetadas por problemas de tradução.

Nada disso, porém, compromete o mérito principal do trabalho: reunir, organizar e apresentar informações dispersas sobre um dos capítulos mais obscuros da história da relojoaria.

Em resumo: leitura rápida, útil e recomendável, especialmente para iniciantes. Apenas sugiro que seja acompanhada por pesquisas paralelas e imagens dos relógios citados. O livro não é definitivo, mas é um bom ponto de partida.



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#2
Fórum principal / O Fator de Qualidade
01 Junho 2026 às 11:47:04
Muitos repetem que relógios de alta frequência são mais precisos. Zenith, Seiko e outras marcas construíram parte de sua reputação sobre movimentos de 36.000 bph. Mas raramente explicam o motivo.

A resposta está em um conceito pouco discutido fora dos círculos técnicos: o fator Q.
O fator Q mede a qualidade de um oscilador.

Em termos simples, ele indica quão resistente um sistema é às perdas de energia e às perturbações externas. Imagine um sino. Alguns produzem um som que desaparece quase imediatamente. Outros continuam ressoando por muito tempo após a batida. O segundo possui um Q maior. Ele conserva melhor sua energia.

No relógio mecânico, o oscilador é formado pelo balanço e pela espiral e aumentar a frequência tende a elevar o Q.
À primeira vista isso parece contraditório. Afinal, um balanço que oscila mais vezes por segundo também encontra mais vezes o atrito. Não deveria perder mais energia?

De fato, perde. Mas o ponto importante é outro. Um movimento de alta frequência não é simplesmente um relógio comum girando mais rápido. Para funcionar, ele precisa de uma espiral mais rígida e de um projeto capaz de armazenar e controlar mais energia. As perdas aumentam, mas a capacidade do sistema de resistir a elas aumenta ainda mais.

Uma analogia útil é a do pião. Um pião girando lentamente é facilmente perturbado por qualquer toque. O mesmo pião, girando muito rápido, parece adquirir mais estabilidade. O que mudou não foi o ambiente ao redor, mas a capacidade do sistema de ignorar pequenas perturbações.

Os movimentos do nosso braço e do nosso pulso são fenômenos relativamente lentos. Já um balanço de 5 Hz, como os utilizados nos famosos movimentos de 36.000 alternâncias por hora, oscila muito mais rapidamente. O resultado é que parte dessas perturbações simplesmente deixa de influenciá-lo de forma significativa. É como tentar desviar um pião em alta rotação com leves toques dos dedos.

Por isso a alta frequência não melhora a precisão apenas porque divide o tempo em frações menores. Ela também torna o órgão regulador mais estável, mais resistente às perdas e menos sensível ao mundo caótico que existe do lado de fora da caixa do relógio.

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#3
Texto novo no blog

https://relogiosmecanicos.com.br/curiosidades/a-industria-relojoeira-sovietica/

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#4
A criação da relojoaria soviética talvez seja um dos capítulos mais obscuros da história da relojoaria. E não apenas porque ocorreu em meio ao caos político, econômico e social da URSS nascente, mas também porque a produção soviética permaneceu, por décadas, voltada quase exclusivamente ao mercado interno, cercada por barreiras linguísticas e documentais que dificultam pesquisas sobre o tema.

Não por acaso, mesmo após décadas lendo sobre relojoaria, sempre tive a impressão de que a origem da indústria soviética aparecia apenas como nota de rodapé em livros. Até onde sei, há pouquíssima bibliografia dedicada ao assunto, e quase nada que reconstrua, de forma concatenada, os eventos que levaram ao nascimento da 1ª Fábrica Estatal de Relógios.
Foi com surpresa, portanto, que encontrei este trabalho de Alan Garratt disponível em PDF e resolvi imprimi-lo e encaderná-lo para leitura. Nota-se o esforço de pesquisa do autor. O livro mergulha na aquisição, pelos soviéticos, do espólio da falida Hampden — e também da Ansonia —, acompanha o transporte do ferramental para Moscou e detalha o início da produção do famoso calibre Hampden 16, renomeado como Tipo-1 na URSS. Há também informações interessantes sobre os 23 relojoeiros americanos enviados a Moscou para treinar os soviéticos.

Garratt consultou descendentes de funcionários da Hampden, reuniu documentos dispersos, traduziu material em cirílico e conseguiu reconstruir personagens e episódios que, até pouco tempo atrás, pareciam perdidos no tempo. Ainda assim, confesso que a leitura me deixou com mais perguntas do que respostas.
A participação da Ansonia, por exemplo, é apenas tangenciada. O papel da francesa LIP no pós-guerra, idem. E o contexto histórico anterior a 1930 é praticamente inexistente. Soma-se a isso um texto que, embora informativo, não é exatamente fluido. Em muitos momentos, a obra parece uma compilação de tópicos sem grande preocupação em costurar melhor as ideias.

Gostei do livro? Sim, mas, ao terminar a leitura, fiquei menos com a sensação de ter encerrado o assunto e mais com vontade de estudar, pesquisar e talvez até escrever algo que conecte melhor todos os fatos.

https://www.hampdenwatches.com/the-birth-of-soviet-watchmaking



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#5
Desde o lançamento da colaboração entre AP e Swatch, vários me enviaram direct perguntando se ainda haveria alguma dúvida de que a estratégia foi vencedora. Afinal, vieram o hype, filas, tumultos nas lojas, exposição massiva, valorização das ações do Swatch Group e uma repercussão raríssima até para os padrões da relojoaria contemporânea. E minha resposta continua sendo a mesma: eu ainda tenho dúvidas.

O lançamento da colaboração entre Audemars Piguet e Swatch reacendeu uma discussão central da relojoaria contemporânea: para uma manufatura de altíssimo luxo, gerar conversa pública fortalece ou enfraquece o próprio prestígio? No mercado atual, relevância cultural constante parece indispensável. Contudo, o ultra luxo historicamente construiu valor justamente pela distância, raridade e certa recusa à massificação. O dilema da AP está exatamente aí.

O Royal Oak já ocupa um nível de exposição raríssimo na alta relojoaria. Tornou-se símbolo recorrente de atletas, rappers, celebridades e do novo luxo performático das redes sociais. Diferentemente do MoonSwatch, que reinterpretava um ícone ligado à exploração espacial e à cultura tool watch, a AP trabalha sobre um objeto cuja identidade já está profundamente associada ao status visível e ao hype contemporâneo. A colaboração, portanto, não "populariza" um relógio discreto; ela amplia ainda mais um símbolo que já vive em estado de saturação cultural.

Talvez a questão mais interessante seja outra: a AP realmente deseja continuar sendo percebida como um luxo tradicional? Tudo indica que não. A estratégia parece partir da percepção de que, no século XXI, invisibilidade cultural representa risco maior do que excesso de exposição.

Não há dúvida de que a Swatch colheu dividendos enormes. Mas e a Omega? Apesar de inúmeros fatores influenciarem seus números, fato é que vendas e faturamento não melhoraram no período pós-MoonSwatch. E é justamente aí que reside minha dúvida.

Estamos falando de empresas centenárias, que não pensam no próximo trimestre, mas nas próximas décadas. A questão é simples: isso produzirá desejo duradouro ou apenas circulação momentânea de imagem? A resposta provavelmente só aparecerá daqui a muitos anos...

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#6
Como já narrei alhures, o fórum nunca será descontinuado, mesmo que não haja mais nenhum participante, sobretudo pela base de dados. Está me seguindo no instagram?

@relogiosmecanicos
#7
Fórum principal / Flavor Flaf e Swatch Royal Pop
13 Maio 2026 às 11:34:22
Nos anos 80, usar cronógrafos digitais esportivos pendurados no pescoço havia virado moda no hip-hop. Certo dia, Flavor Flav e seu amigo Son of Bazerk estavam numa batalha de rap quando uma noiada passou pelo local oferecendo um relógio de parede que havia furtado. Son of Bazerk tirou o cronógrafo do pescoço de Flav e colocou o relógio no lugar. Todo mundo riu. Então, desafiaram-no a usar aquilo no palco. Flav usou o relógio na abertura de um show dos Beastie Boys, em Passaic, Nova Jersey, em 1986. No dia seguinte, estava na capa do Daily News e do Newsday. O resto é história: a imagem de Flav com o relógio gigante no pescoço se tornou um dos ícones pop da época.

Quando a AP e a Swatch lançaram o Royal Pop, postei uma foto do Flavor Flav e disse que meu comentário estava todo ali, para quem soubesse ler nas entrelinhas. Recebi dezenas de directs concordando comigo, achando que a foto era uma crítica. Não era. Era exatamente o contrário.

Jurei que não comentaria o tema, já que não costumo seguir trend topics. Mas, como muitos parecem não ter compreendido minha opinião por meio de uma foto, resolvi explicar.

O Royal Pop é menos ruim do que eu esperava. A boa ideia do conceito é ser um relógio de bolso: ao se afastar tanto do Royal Oak original, reduz o risco de diluir a aura da marca. Não é um Royal Oak barato. É outra coisa completamente diferente.

A AP vem flertando com a cultura pop há anos. Os puristas torcem o nariz, mas é exatamente isso que explica o crescimento da marca na última década: hoje, produto que não gera conversa em rede social está fadado a morrer. A outra face da moeda é que o Royal Oak já é um dos objetos mais fotografados da relojoaria, e isso vai na contramão do que a cultura do luxo historicamente espera de seus ícones. Pode virar moda, claro — mas modas passam, e quem lembra dos ioiôs da Coca-Cola sabe muito bem do que estou falando (rapaz, estou velho...).

Para quem queria usá-lo no pulso, a DeLugs já está projetando braceletes aftermarket; vale acompanhar.

Achei o produto interessante, com todas as ressalvas acima. E, se algum de vocês achou legal, não seja idiota: segure o ímpeto e espere chegar ao preço de tabela. Só idiota paga ágio em relógios.

#8
Um Rolex Datejust modificado por George Daniels com escape coaxial vai a leilão esta semana pela FutureGrail. A estimativa é de US$ 200 mil a US$ 400 mil, e considero conservadora. Não se trata do protótipo original que Daniels levou pessoalmente à fábrica da Rolex em Genebra, em 1984, para tentar convencer a empresa a adotar o coaxial. Este Datejust é posterior, de 1988, um estudo particular realizado por ele. Mas vale contar o contexto.

A narrativa na sua autobiografia All in Good Time é reveladora de sua personalidade e de como a indústria suíça tratava ideias que não nasciam dentro de suas próprias paredes. Ao chegar à sede da Rolex, foi mantido esperando dezessete minutos, sendo que já sabiam o motivo de sua visita. Daniels decidiu ali mesmo que não ofereceria nada voluntariamente: se quisessem saber algo, que perguntassem. Na reunião com o técnico-chefe, este enumerou dificuldades no mecanismo com ar de superioridade. Daniels respondeu que dificuldades eram para técnicos — soluções eram para artistas. O homem saiu da sala e não voltou.

A Rolex ficou com um protótipo Omega que ele havia modificado para testes. Daniels havia avisado de antemão que a amplitude do balanço era baixa — tratava-se de seu primeiro protótipo, não do design mais eficiente, cedido apenas para demonstrar os princípios do coaxial. Semanas depois, recebeu um relatório técnico da Rolex apontando, como se fosse uma descoberta, que a amplitude do balanço era baixa! Daniels respondeu, com a ironia característica, que já havia dito exatamente isso — e que, dada a excelente performance nos testes de marcha, por que isso seria um problema? Meses depois, uma delegação visitou sua oficina na Ilha de Man, examinou os escapamentos sob microscópio e concluiu que as tolerâncias eram exigentes demais para produção em série. Daniels demonstrou que pivôs e rubis eram componentes padrão, idênticos aos da própria Rolex. Não adiantou. A Rolex encerrou o interesse. A Omega adotaria o coaxial em 1999. O Datejust que vai a leilão esta semana é um fragmento dessa história e de um homem cuja paciência para a mediocridade alheia era nenhuma.

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#10
Não nego isso, na verdade, acho que são produtos equivalentes. Minha questão é só de gosto mesmo.
#11
Pois é... A questão dos relógios mais antigos da Omega, anos 90 e 2000, não era de design, mas qualidade, bastava terem melhorado tudo e mantido os relógios parecidos. A bem da verdade, os 300 m atuais guardam todo DNA dos anos 90, mas com a mudança de calibre, se tornaram mais espessos. Aliás, a Omega precisa passar toda sua linha pelo Moujaro...
#12
O impressionante é como a Omega só piorou os 300 m com o passar do tempo. Mantivesse o troço como era nos anos 90 e todos estariam bem felizes hahahahah
#13
Na minha mais sincera opinião, acho que é um bom custo benefício na faixa de 1300 reais. Porém... Por 1500 você pega um Orient Heritage, e aí a escolha para mim se torna óbvia, considerando o design homage do Riviera (Rolex).
#14
@kingflum, @perezcope e @watchoosy, pessoas que respeito profundamente por emitirem opiniões que vão de encontro ao status quo, redigiram posts, e no caso do kingflum um cuidadoso texto, argumentando que a Rolex teria se apropriado indevidamente do termo "grand feu" para descrever o mostrador do novo Daytona. Ouso discordar, com base em fontes que todos parecem ter ignorado.


O argumento dos críticos apoia-se na definição da ASM International, segundo a qual esmalte sobre metal é "porcelain enamel" e esmalte sobre cerâmica é "glaze". Correto — mas isso é nomenclatura industrial do século XX. A historiografia conta outra história: o V&A Museum e o LACMA documentam que "grand feu" nasceu na tradição francesa da faiança dos séculos XVII e XVIII precisamente para descrever a queima a alta temperatura sobre substrato cerâmico. O termo migrou depois para a esmaltaria relojoeira sobre metal e ganhou ali um conceito restritivo que não é a sua origem.
Há ainda um segundo problema nas premissas. A narrativa do grand feu como artesanato difícil e irreprodutível industrialmente não resiste ao escrutínio histórico. Elgin e Waltham produziram milhões de mostradores em esmalte grand feu de forma completamente industrial, por centavos de dólar, sem que ninguém questionasse o termo.

Hoje, anOrdain, Venezianico e Seiko entregam mostradores tecnicamente corretos em relógios de cerca de dois mil euros. Fornos de temperatura controlada tornaram o processo muito menos imprevisível do que era na era de Breguet.
E aqui está a ironia maior: a necessidade de compatibilizar coeficientes de expansão térmica entre esmalte vitroso e zircônia enriquecida com carbeto de tungstênio — substrato inerte e quimicamente hostil à adesão — torna o processo da Rolex muito provavelmente mais complexo e mais caro do que qualquer grand feu sobre base metálica convencional.

 A Rolex resolveu de forma sofisticada um problema que o contra-esmalte tradicional resolve de forma mais simples.
Para mim, é grand feu. Mas o debate merece premissas mais sólidas do que as que têm circulado.


Flávio

O texto de Kingflum pode ser lido aqui

https://www.screwdowncrown.com/p/rolex-daytona-126502-grand-feu-naming

#16
E o que tem isso a ver com relógios? Leiam o texto abaixo e vejam se concordam comigo que isso pode abrir brechas para que o swiss made, que já é um conceito jurídico "relaxado", possa se ampliar.

https://www.bloomberglinea.com.br/linha-esportiva/tenis-da-on-produzidos-na-asia-ganham-o-direto-de-exibir-o-simbolo-da-cruz-da-suica/?outputType=amp
#17
Na verdade, coloquei a Parker Sonnet para funcionar e ela foi embora, está zero. A que queria arrumar, uma Waterman Hemisphere, eu sinceramente não a achei hahahahahahahah

Deixei para lá.
#18
Pelos seus livros, provavelmente já deve ter em mente para comprar ou baixar (porque outro dia enviaram-me o pdf), o the watchmaker and his lathe, do Donald De Carle.
#19
Mercado de usado anda super aquecido e a previsão é que ultrapasse o primário em pouco tempo em volume de negócios. E justamente porque no secundário você consegue a faixa de preços que os fabricantes abandonaram nos últimos tempos....
#20
Fórum principal / FP Journe Elegante
09 Março 2026 às 14:28:40
Escrevo sobre relojoaria desde 1999 e raramente perco tempo criticando relógios específicos. Mas o F.P. Journe Élégante merece uma exceção, porque o que aconteceu com ele é uma das maiores aberrações que já acompanhei no mercado.

Comecemos pelo que todos parecem ter esquecido: o Élégante nasceu em 2014 como um produto deliberadamente "barato" no universo Journe, para capturar o mercado feminino que despontava. Durante dois anos sequer existiu versão masculina, que chegou apenas em 2016, e a recepção foi morna. O SJX, um dos poucos veículos que ainda respeito, concluiu que era difícil evitar vê-lo como um "brinquedinho caro" ("fancy toy"). Nos fóruns da época, o lançamento passou despercebido.
Tecnicamente, o relógio não impressiona quando examinado com honestidade. O calibre 1210 é um quartzo convencional, sem termocompensação, com marcha típica de dez a quinze segundos por mês. O sistema que paralisa os ponteiros e os retoma ao detectar movimento não é novidade: a Seiko fazia isso desde os anos 1990 nos modelos Kinetic Auto Relay, dispensando bateria e suportando anos em modo de espera. E se o assunto for precisão, a Grand Seiko produz quartzos termocompensados com desvio de dez segundos por ano e intervalo teórico de manutenção de 50 anos, segundo a própria marca.

O preço de tabela é de aproximadamente vinte mil dólares — indefensável para um quartzo comum, mas ao menos coerente com o prestígio da marca. No mercado secundário, o relógio é negociado por valores próximos de duzentos mil. Dez vezes mais. O mesmo preço de cronógrafos super complicados da Patek Philippe, cuja construção demanda meses de trabalho artesanal e representa o ápice técnico de mais de um século de relojoaria de pulso.

O que precisa ser dito: o mercado pagar duzentos mil dólares por um objeto não o transforma em algo que "vale" duzentos mil. O preço paralelo não retroage sobre a engenharia, não altera a precisão, não apaga a origem de um produto concebido para ser relativamente barato. O Élégante continuará sendo, intrinsecamente, o que sempre foi: um produto de 20 mil dólares, independentemente do que pessoas ricas estejam dispostas a pagar por ele.