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FP Journe Elegante

Iniciado por flávio, 09 Março 2026 às 14:28:40

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flávio

Escrevo sobre relojoaria desde 1999 e raramente perco tempo criticando relógios específicos. Mas o F.P. Journe Élégante merece uma exceção, porque o que aconteceu com ele é uma das maiores aberrações que já acompanhei no mercado.

Comecemos pelo que todos parecem ter esquecido: o Élégante nasceu em 2014 como um produto deliberadamente "barato" no universo Journe, para capturar o mercado feminino que despontava. Durante dois anos sequer existiu versão masculina, que chegou apenas em 2016, e a recepção foi morna. O SJX, um dos poucos veículos que ainda respeito, concluiu que era difícil evitar vê-lo como um "brinquedinho caro" ("fancy toy"). Nos fóruns da época, o lançamento passou despercebido.
Tecnicamente, o relógio não impressiona quando examinado com honestidade. O calibre 1210 é um quartzo convencional, sem termocompensação, com marcha típica de dez a quinze segundos por mês. O sistema que paralisa os ponteiros e os retoma ao detectar movimento não é novidade: a Seiko fazia isso desde os anos 1990 nos modelos Kinetic Auto Relay, dispensando bateria e suportando anos em modo de espera. E se o assunto for precisão, a Grand Seiko produz quartzos termocompensados com desvio de dez segundos por ano e intervalo teórico de manutenção de 50 anos, segundo a própria marca.

O preço de tabela é de aproximadamente vinte mil dólares — indefensável para um quartzo comum, mas ao menos coerente com o prestígio da marca. No mercado secundário, o relógio é negociado por valores próximos de duzentos mil. Dez vezes mais. O mesmo preço de cronógrafos super complicados da Patek Philippe, cuja construção demanda meses de trabalho artesanal e representa o ápice técnico de mais de um século de relojoaria de pulso.

O que precisa ser dito: o mercado pagar duzentos mil dólares por um objeto não o transforma em algo que "vale" duzentos mil. O preço paralelo não retroage sobre a engenharia, não altera a precisão, não apaga a origem de um produto concebido para ser relativamente barato. O Élégante continuará sendo, intrinsecamente, o que sempre foi: um produto de 20 mil dólares, independentemente do que pessoas ricas estejam dispostas a pagar por ele.



Octávio Ferraz

este caso é uma aberração, sem dúvida. Esta é a palavra. Que ficasse em sua primeira versão e preço. Em minha desimportante opinião, atualmente é crucial falar a respeito de modelos específicos, sobretudo quando se trata de um olhar mais crítico a ponderar, a despeito da sedução e delírio, em especial nestes casos de preço.