Autor Tópico: A questão dos acabamentos dos movimentos... O tópico criado pelo Flávio Maia.  (Lida 6726 vezes)

Offline Alberto Ferreira

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Olá, amigos.

Eu creio que todos concordam que há aqui informação de ótima qualidade, que não pode ser "perdida"...
Então, eu decidi criar este tópico aqui, onde eu compilei as passagens mais relevantes, depois eu vou transferí-lo para a área de Clássicos, onde ficara para leitura a qualquer tempo.
Com isto eu não estou transferindo o tópico original do Flávio, que ficando na área principal, atrairá contribuições e extensões.

Aí vão...

Não é tão simples definir, como alguns autores às vezes dizem como se fosse verdade absoluta, os motivos que levaram os suíços a passar a de fato embelezar seus movimentos. Os ingleses, como é notório, faziam relógios com um espírito muito maior de "utilidade" e, por isso, aparentemente seus acabamentos eram espartanos. Aparentemente... Digo isso porque, como é notório, até meados do século XIX, os ingleses eram conhecidos por fazer os relógios que marcavam a passagem do tempo com mais precisão. Mas ao olho do leigo, eram aparentemente simples, com suas platinas folheadas a ouro e acabamento "frosted". Quem admira o trabalho de George Daniels e Roger Smith sabe do que estou falando...

Os suíços não. Conquanto possuindo um senso de estética bastante agradável, seus relógios poderiam ser comparados a "penteadeiras de putas" perto dos ingleses, com seus perolizados, listras, chanfros, etc.

O mais curioso de tudo isso, num tempo em que mostradores atrás de relógios não eram de modo algum utilizados: acabamentos feitos para relojoeiros verem, eis que o movimento permanecia fechado no interior da caixa até reparo.

Uma explicação plausível é que os huguenotes, ao fugirem da França e se instalarem na Suíça, não podiam fazer objetos muito embelezados, por doutrina religiosa. No entanto, encaravam os relógios como algo útil, razão pela qual alguma decoração era suportável. Não podendo embelezar o exterior, voltaram-se para o interior. A explicação é bastante razoável, mas creio que também sempre existiu a vontade do relojoeiro que fazia o acabamento final de mostrar ao que veio, ainda que seu trabalho só fosse ser apreciado, no futuro, por outro relojoeiro. Mas enfim...

Fato é que algumas decorações - cuja gênese se perdeu no tempo, diga-se - possuíam função técnica, sobretudo em tempos de caixas não hermeticamente fechadas como as de hoje. Por exempo, as famosas listras de genebra e perolizados, ao criarem uma superfície rugosa nas platinas, serviam para "coletar" e manter no lugar pequenas partículas de pó, evitando-se que caíssem nos pivôs e partes críticas do relógio. As bacias polidas para os mancais dos pivôs, fossem eles de bronze ou rubi, impediam que pequenas limalhas metálicas se desprendessem e fossem cair na rodagem. Claro, tudo isso trazia e ainda traz muita beleza, mas tinham também função técnica.

Há alguns dias rolou uma discussão aqui sobre a qualidade dos relógios e, invariavelmente, os movimentos entraram na roda.

Às vezes é muito simples para o neófito, que começa a gostar de relógios mecânicos, perceber a diferença entre laranjas e maçãs. Qualquer pessoa, até mesmo um bebê de 2 anos de idade, consegue perceber diferença de acabamento entre, por exemplo, um Valjoux 7750 na sua conformação básica (não elaboré, a basicona mesmo) e, digamos, um Zenith El Primero, que não tem o supra sumo do acabamento mas, só de olhar, a pessoa "sente" que tem algo diferente. Noção estética pura e simples. Um é mais bonito do que o outro, simples assim. Não acreditam? Basta olhar essas duas fotos, ambas do Walt Odets:








E vejam, em nenhum momento ouso dizer que o Zenith seja um movimento "melhor" do que o 7750 para o que foi proposto, a marcação de tempo. Estou apenas dizendo que a construção de um deles é seguramente mais detalhada do que o outro. Existem, sim, acabamentos funcionais, como polimento de pivôs, projeto de escapamento, etc, que efetivamente determinam a qualidade de um relógio e, neste sentido, um 7750 certificado como cronômetro se comporta tão bem ou melhor do que um Zenith. Mas voltemos ao assunto.

Eu resolvi dar uma olhada num site que possui bastante macros, para que pudesse mostrar alguns pontos. O site é este, e todas as fotos são dele:

http://www.phase-de-lune.net/

Vejam. Fotos em macro são "uma puta falta de sacanagem", porque ninguém possui lupa nos olhos. A estética deve ser agradável ao olho nu, qualquer coisa além disso é exagero. O Walt Odets, quando ainda escrevia na rede, tinha uma máxima com a qual concordo: se você olha algum relógio com uma lupa de até 4 vezes de aumento e este parece perfeito, ele é perfeito. Qualquer coisa além disso é exagero.

Mas os macros são bons para mostrar pontos de vista. Alguns exemplos então! Ah! Fiz questão de comparar relógios considerados médios com top, porque é aí que o neófito se embaralha. Aos olhos de um neófito ou mesmo de alguém já experimentado, a diferença entre um Valjoux 7750 e um Zenith El Primero salta aos olhos. Mas e entre um Zenith El Primero e algo bem superior? Aí é o pulo do gato... As coisas não parecem tão óbvias, até mesmo porque - creiam - as máquinas atuais computadorizadas fazem acabamentos tão bons ou melhores do que os feitos a mão.

Para o primeiro exemplo, pois, escolhi dois relógios semelhantes no seu "uso" e visual, o Zenith Elite (aliás, tenho um exemplar...) e o Patek Calatrava.




Observem nesta foto o perolizado (perlage) nas bordas da platina. Um excelente perolizado possui vários circos concêntricos que se interlaçam. Falando de forma tosca, quando mais círculos concêntricos houver num pequeno espaço, mais trabalho o relojoeiro teve para fazer, quando é realizado a mão, o que seguramente não é o caso da Zenith. Esteticamente o perolizado é bem agradável, mas de modo algum algo feito a mão, porque estariam muito mais próximos entre si e definidos. Mas é um bom acabamento, não posso negar. Passando para a transição, a borda externa é chanfrada, mas vejam como a interna não é. A estamparia dos escritos é perfeita, definida e com boa profundidade. As listras de genebra possuem profundidade, não são apenas uma "casquinha" mal feita. Mas dada a sua "perfeição" demais, seguramente não feitas à mão. Percebam, ainda, que muito embora os rubis estejam apoiados em furos sem rebarbas de metal, etc, não há polimento algum nas bacias. Aliás, nem há bacia!




Visualmente falando, e convido as pessoas a terem cara de pau e visitarem as lojas e pegarem esses relógios nas mãos, a olho nu a diferença entre um Patek Calatrava (cujo movimento é basicamente feito a máquina, salvo alguns acabamentos) não é tão brutal assim. Well... Mas aí você começa a comparar e... Não vou discutir aqui coisas óbvias, como rotor em ouro num e aço em outro. Olhem o local onde o rubi está encaixado, assim como a bucha de bronze da árvore do tambor: há uma bacia polida, que seguramente irá refletir na luz o brilho do rubi. Isso custa dinheiro fazer e, no caso da Patek, normalmente é feito manualmente. Acompanhem, ainda, o contorno da platina. Este é chanfrado não apenas nas faces externas, mas internas. A qualidade da impressão da Zenith já era primorosa, mas vejam a da Patek. As listras de genebra são mais abauladas. Colocadas contra a luz, dependendo do ângulo ficam pretas.


Sigamos aos cronógrafos, colocando um queridinho da galera no meio, o Lemania que equipa o Speedy. E vejam, o movimento Lemania que o equipa já é algo considerado superior no mercado. Escolhi uma foto:



O acabamento folheado a cobre da Omega pode não ser do gosto de todos. Eu, na minha singela opinião, acho que a Omega nunca deveria tê-lo abandonado. Afinal, a marca o usou por uns 100 anos! Eu gosto. Mas voltando ao movimento, percebam que os rubis estão todos apoiados em bacias polidas, bem bonitas. Todas as bordas das platinas são chanfradas, muito embora as não tão visíveis de uma forma meio tosca, mas bastante razoável. Não só os rubis são apoiados em bacias polidas, como todos os parafusos! As rodas não possuem chanfros nos seus raios (aliás, isso é algo que somente conseguiram fazer com máquina de uns tempos para cá. A Blancpain faz), mas vejam que possuem os seus "ombros" polidos (na roda girando à esquerda isso é claro).

Excelente movimento. Como já dissemos aqui, simplesmente inacreditável que a Omega continue cobrando neste relógio o que cobra: uma verdadeira barganha.

Mas subamos o nível, e muito. Eis um Vacheron crono calendário perpétuo. Seguramente relógio de uma centena de milhares de dólares.




Enquanto no Lemania as platinas eram chanfradas, aqui TUDO é chanfrado, das alavancas de crono ao regulador do escapamento! E com um detalhe: claramente feito à mão. É que o ser humano consegue fazer transições "abruptas" no chanfro, quando estes mudam de direção (vejam na ponte onde está escrito o número de série). A máquina não, ela tende arredondar tudo. Sem contar que a qualidade de polimento nos chanfros está em outro nível. Mas vou além: os raios das rodas são chanfrados também, e isso só na mão. Conquanto o Lemania seja um movimento EXTREMAMENTE bem acabado, o Vacheron demonstra que algumas centenas de horas foram gastar somente em acabamentos estéticos.

Gostam da IWC? Eu também, e o calibre 5000 deles, na minha opinião, é uma das coisas esteticamente mais agradáveis que já vi:




Mas... Será o ângulo ou as listras de genebra de uma ponte e outra estariam desalinhadas? Num relógio de qualidade superior isso não poderia ocorrer. Mas que parece desalinhado parece, muito embora possa ser o brilho gerado pelo ângulo da foto.

Belos parafusos! Todos polidos e chanfrados. As bordas da platina, porém, são abruptas, nada chanfradas e a qualidade e profundidade das listras de genebra... Well... As da Zenith pareceram-me melhores, como mais sutileza nos riscos, embora mais profundas. Mas belo movimento, quem já pegou um na mão sabe o que estou dizendo.

Mas... Vamos compará-lo com um F.P Journe. Pô Flávio, aí é sacanagem! Nem tanto! A Paul Journe cobra caro mas não extorsivamente caro, e o Cronômetro Souverain, como da foto, em ouro, custa um pouco menos de 30 mil dólares. Caro? Sim, caro, mas mais barato do que muito relógio "supostamente" feito a mão por aí. Aliás, a FPJOurne, tenho que confessar: podem não gostar de todos os modelos, mas seguramente nunca viram nada igual. A marca tem tantas características singulares que você identifica um ao longe. Fazem poucos relógios, acabamentos todos feitos a mão e... Não só os movimentos, COMO TUDO no relógio, é de qualidade claramente superior, inclusive superior aos Pateks da mesma faixa de preço.




Acho que neste ponto já dá para tirar algumas conclusões, porque, na minha opinião, ele reúne tudo de bom que falei acima sobre acabamentos.

Aliás, ouso colocar o link para todas as fotos que o cara tirou deste modelo em particular que, diga-se, acho MARAVILHOSO de morrer. Prestem atenção, depois de terem lido essas breves considerações que fiz, nas fotos. Mas não apenas do movimento... Vejam a qualidade de impressão no mostrador, vejam a qualidade dos ponteiros. Não fica melhor do que isso... Aí, quando você olha um relógio desses, você começa a achar o valor justificável... Não justificável são marcas mais modestas e com tudo produzido em massa cobrarem o que cobram em alguns modelos.

http://www.phase-de-lune.net/journe_cs/journe.htm



Flávio


Crássico já!

Boa patrão! Tem uma comparação que gosto muito: o Lemania 2310 ou 27 CHRO C12 se preferirem. Já vi ao vivo 4 versões desse mesmo mecanismo: o Omega é o mais "miserável" e ainda assim é lindo. Já vi inúmeros na mão, com lupa, desmontado, do avesso...

Mas aí partimos para o mesmo movimento pela Breguet. Já vi dois ou três na mão, analisei com lupa... já é um troço de outro planeta. E já vi também uma vez o mesmo dito cujo pela Vacheron, numa caixa de platina... um dos relógios mais maravilhosos que já vi. Um verdadeiro sonho. Também vi com lupa, vi desmontado...

Não tive como comparar o Breguet e com o VC, vi eles em datas totalmente distantes. Lembro-me de serem equivalentes, mas achei o VC mais bonito, pelo menos fiquei com isso na memória (talvez por sugestão, já que o relógio é sensacional).

Agora, o Patek... vi ao vivo mas não na mão. Vi no display que a PP mantém na vitrine de seu stand nas Baselworld, com todos os seus movimentos, só eles. Eles vão um passo adiante ainda. Inacreditável.

Abraços!

Adriano


Por falar no Journe, deu hoje no monochrome. http://monochrome-watches.com/fp-journe-solid-gold-dials-live-photos/   
Flávio


Por falar no Journe, deu hoje no monochrome. http://monochrome-watches.com/fp-journe-solid-gold-dials-live-photos/   
Flávio


Mais uma foto também divulgada hoje em redes sociais. Trata se do processo manual da rgm para aplicação de perolizado. Vejam que a regra é a aplicação em toda superfície. Porém, como discutimos no tópico sobre o omega 9300, a regra tem sido, nas fábricas medianas, a aplicação somente nas partes visíveis, o que reputo um verdadeiro estelionato, ainda que sob a justificativa de redução de custos. Aliás, a rolex também é mestre nisso. Paciência. Flávio
...



Comentário.
Na medida que surjam mais postagens relevantes para o tema, eu as adicionarei aqui.

Abraços a todos,
Alberto